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A LEI DA REVELAÇÃO ESTUDOS EM HERMENÊUTICA BÍBLICA


                                                                                                                     
          

         A LEI DA REVELAÇÃO

      A correta interpretação da Bíblia deve começar com a verdade básica de que Deus deu uma revelação de Si mesmo e Sua vontade. Sem isso, o homem estaria no mar sem estrelas ou sem bússola, e todos os seus pensamentos do que é a vontade de Deus não seriam nada senão a imaginação de seu próprio coração e mente depravados. Pela natureza ninguém entende a verdade de Deus, pois ela está numa esfera estranha ao pensamento do homem. Assim lemos em 1 Coríntios 2.14. O pecado perverteu de tal forma o pensamento humano que o homem não pensa como Deus pensa, Isaías 55.7-9. Daí, a verdade de Jeremias 10.23.

Os primeiros versículos da Bíblia, Gênesis 1.1-6, sugerem essa revelação que Deus fez de Si mesmo, pois embora os versículos 3-5 estejam relacionados à luz literal, é certo porém que há um simbolismo aí que é explicado mais tarde como tendo a ver com iluminação espiritual, 2 Coríntios 4.3-6. Observe aqui o versículo 6 em particular: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, [referindo-se a Gênesis 1.3-5] é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo.” Aqui está a revelação de Deus de Si mesmo, e essa revelação foi feita com a maior plenitude e conclusão com a vinda do Filho de Deus numa natureza humana, conforme lemos em João 1.18: “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer”. Muitas vezes as Escrituras mostram que as coisas literais têm um sentido simbólico e típico que não é evidente à primeira vista.

Essa primeira e importantíssima Lei de Interpretação da Bíblia — A Lei da Revelação — é tal que se não formos sólidos nela, não poderemos ser sólidos em nada mais, por mais sinceros ou zelosos ou instruídos que possamos fora disso ser. É isso o que mostra Isaías 8.20. “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há nenhuma luz neles”. Isso é suficientemente claro, não é? Toda luz espiritual = verdade — corresponderá à Lei e ao Testemunho de Deus.

Essa Lei é que Deus revelou tudo o que alguém precisa saber sobre todas as coisas espirituais. Ele não falou extensivamente nas esferas da ciência, matemática, genética e muitas outras esferas, mas onde Ele falou nessas áreas Ele falou em verdade. Lemos em Deuteronômio 29.29 acerca do dever humano com relação à revelação de Deus dos assuntos espirituais. “As coisas encobertas são para o SENHOR, nosso Deus; porém as reveladas são para nós e para nossos filhos, para sempre, para cumprirmos todas as palavras desta lei”. Deus reservou muitas coisas secretas para Si, e o homem não tem nem a capacidade de conhecê-las nem lhe compete sondá-las, mas ele está sob a obrigação de saber e fazer o que foi revelado. E ele está pela natureza sob maldição por negligenciar saber e fazer o que foi revelado, Gálatas 3.10.

Essa Lei da Revelação terá relação com quatro verdades básicas, a primeira sendo A Revelação do próprio Deus, da qual já falamos brevemente. Embora a própria criação testifique da existência de Deus, e o Salmo 19.1-4 deixe toda a humanidade sem desculpa por não se submeter a Ele, Romanos 1.18-20, contudo há muitas coisas sobre Deus que o homem não poderia saber se não fosse pelo fato de que Ele as revelou nas Escrituras.

O primeiro versículo da Bíblia é um testemunho da natureza triúna da Divindade, pois a palavra “Deus” traduz o substantivo hebraico Elohim. A palavra raiz “Eloh” significa literalmente “o Forte”, e isso é evidenciado em que esse Forte criou o mundo, e tudo o que está nele, de modo que todos pertencem a Ele por direito de criação, 1 Coríntios 10.26. Essa verdade acusa todo ser humano que não está vivendo em submissão à vontade de Deus. A terminação “-im” é a terminação plural das palavras hebraicas. E aqui é necessária uma explicação. Em português temos substantivos no singular, referindo-se a um, e no plural, referindo-se a dois ou mais. Mas a língua hebraica é diferente, pois tem três números: singular — um; dual — dois; e plural — três ou mais. Daí, a terminação plural desse substantivo se refere a Deus — o Forte — como um Ser uniplural consistindo de três ou mais Personalidades. O restante das Escrituras limita essa pluralidade só a três Pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito. Mas ao contrário dos tão chamados unitaristas (os trinitaristas são mais verdadeiramente unitaristas, pois cremos na Unidade de Deus, que não é incoerente com o Trinitarianismo, que sustentamos), as Escrituras começam com um testemunho da doutrina da Trindade, que é explicada posteriormente na Bíblia.

Imediatamente no começo das Escrituras vemos a soberania de Deus, Sua personalidade triúna, Seu direito de posse e Senhorio de toda a criação, Sua benevolência, e muitas outras coisas. Mais tarde Elohim é revelado como Jeová, que é Seu nome pessoal, e esse nome significa que Ele é o Deus que guarda alianças e se preocupa com Seu povo.

Todas as atitudes subseqüentes de Deus para com os homens manifestam Sua santidade imaculada, e conseqüentemente Sua justiça incontestável que deve e punirá todas as violações de Sua santa vontade. “Porque tu não és um Deus que tenha prazer na iniqüidade, nem contigo habitará o mal. Os loucos não pararão à tua vista; odeias a todos os que praticam a maldade. Destruirás aqueles que falam a mentira [quer dizer os que falem contrário à Sua revelação]; o SENHOR aborrecerá o homem sanguinário e fraudulento”. (Salmos 5.4-6)

A revelação que Deus faz de Si mesmo não só revela que Ele é Criador e Senhor, e que portanto todos os homens devem fidelidade e adoração a Ele, mas também revela Sua direção providencial de todas as coisas para o bem da criatura quando ela se submete à vontade de Deus. A falha do homem em fazer isso é o que constitui a depravação humana, e conseqüentemente a condição perdida do homem, e assegura a todos os que assim agem que um dia eles serão julgados e condenados. Nenhum texto revela melhor as operações providenciais de Deus para o bem de sua criatura mais elevada do que Romanos 8.28: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto”.

Mesmo que não houvesse outros fatores, só esse bastaria para condenar o homem à perdição eterna, não houvesse uma redenção feita para ele, pois sua descrença é apesar da — e contrária à — contínua bondade de Deus para com ele. Uma das principais, se não a principal, ênfase das Escrituras é que o Deus Triúno que guarda a aliança que Ele fez com o Seu povo realizou uma redenção por eles. A primeira comunicação disso foi dada enquanto o homem caído estava ainda no Jardim do Éden quando Deus predisse que a Semente da mulher derrotaria a semente da serpente, Gênesis 3.15. Esse foi o propósito declarado da encarnação do Filho de Deus. “E dará à luz um filho, e chamarás o nome de JESUS [do hebraico Jehoshua significando Jeová é Salvador], porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”. (Mateus 1.21) “Bem como o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate de muitos”. (Mateus 20.28)

Todas as coisas revelam a personalidade graciosa de Deus, e devem ser reconhecidas como a revelação que Deus faz de Si mesmo, de outra maneira não podemos interpretar corretamente a Palavra de Deus. Mas há ainda outra coisa que é parte da revelação que Deus deu, e que é, segundo, a revelação da impiedade, ou depravação humana. Esse é o ensino claro das Escrituras acerca do estado natural do homem desde o momento do nascimento. O primeiro homem, que representava todos os que descenderiam dele, pecou, e assim trouxe um estado natural de pecaminosidade sobre todos, Romanos 5.12. Daí, a verdade de Romanos 3.23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Isso é inegável, pois todos provam isso continuamente, como o salmista foi movido a escrever no Salmo 10.4-11. O versículo 4 dessa passagem explica a aversão universal do homem a Deus até que ele tenha graciosamente se convertido: “Por causa do seu orgulho, o ímpio não investiga; todas as suas cogitações são: Não há Deus”. Aqui está, incidentalmente, a definição de Deus para a maldade. Não necessariamente a imoralidade, mas simplesmente uma aversão inata que move o homem natural a ter tão pouco a ver com Deus quanto possível. Portanto, ninguém pode com justiça interpretar as Escrituras enquanto nega a depravação total do homem.

Embora o homem continuamente negue sua impiedade, e tente justificá-la, sua vida porém é uma prova viva dessa impiedade. Um leigo cristão certa vez disse que as pessoas que afirmarem não crer na depravação total, com certeza a praticam abertamente. Mas quer o homem a reconheça ou não, as Escrituras continuamente revelam a pecaminosidade do homem. O homem natural ama o que Deus odeia, e odeia o que Deus ama, e não quer nada a ver com Deus, e isso é devido em grande parte ao fato de que Deus revela o que o homem não quer, em seu total egocentrismo, reconhecer — sua impiedade inata. Tragicamente, muitos professores aprovam os pecados dos pecadores quando tentam remover a doutrina da depravação total mediante suas interpretações da Bíblia.

Uma das verdades mais fundamentais é que a impiedade humana consiste na recusa do homem de conformar-se à Verdade de Deus. 1 João 3.4s declara que o “pecado é iniquidade”. A Lei de Deus — que abrange muito mais do que os Dez Mandamentos, pois realmente inclui todas as Escrituras — é o padrão de tudo o que é certo e errado. As declarações de Romanos 4.15s deixam claro a abrangência dessa Lei: “Onde não há lei também não há transgressão”. E Romanos 5.13s: “O pecado não é imputado não havendo lei”. Isso está bem claro. O pecado é só imputado ou declarado contra uma pessoa se ela violou a Lei Divina e se ela não a violou, não importa o que mais ela tenha feito, nenhum pecado é declarado contra ela. O padrão para o que é certo e o que é errado é a Palavra de Deus, um padrão objetivo (fora do homem), e não as próprias idéias de uma pessoa do que é certo e errado, um padrão subjetivo (dentro do homem), como tantos falsamente o interpretam hoje. O pecado é pecado quer o pecador pense que é pecado ou não. E o que os pecadores pensam que é bom não é bom a menos que esteja à altura das exigências de Deus conforme mostram as Escrituras. Essa é uma verdade tremendamente libertadora, pois elimina toda a falsa culpa, e uma verdade que honra maravilhosamente a Deus, pois revela a necessidade de um total conhecimento, e obediência, das Escrituras como o único fator determinante nesse assunto.

Muitos pregadores falsos violam Romanos 4.15 e 5.13 colocando falsa culpa, mediante pregações legalistas, sobre as pessoas às quais eles ministram. Isto é, eles formulam leis eclesiásticas para controlar os membros quanto o que podem crer e fazer quando essas leis não têm base na Palavra de Deus. Esse tipo de pregação é bem popular entre pregadores e até mesmo entre o povo comum, pois agrada à soberba da vida em nos fazer pensar que temos guardado certas leis religiosas, e por isso merecemos a aprovação de Deus. Mas é baseado em princípios errados de interpretação da Bíblia. E essa pregação legalista geralmente ignora o ensino de que somos aceitos totalmente pela graça, ou então o interpreta de modo incorreto. Mas isso é totalmente contrário ao sistema da graça que ensina que se não somos aceitos totalmente pela graça, não somos então de modo algum aceitos diante de Deus.

E, em seqüência, em terceiro lugar, a revelação de Deus é pela graça sendo o único princípio sobre o qual o pecador se achega a Deus sem ser condenado. É somente nessa base que o homem tem alguma esperança, pois sem a graça de Deus o homem está sem esperança e destinado à perdição eterna. As Escrituras revelam o seguinte sobre a graça: (1) Ela vem só de Deus, 1 Pedro 5.10. (2) Ela é totalmente aparte das obras humanas, Romanos 11.6. Não se pode misturar um com o outro, e a confiança num dos dois automaticamente elimina o outro. (3) Ela foi trazida ao homem através da encarnação do Senhor, João 1.14. (4) Ela começou na eternidade, tendo sido depositada em Cristo Jesus para todos os eleitos, 2 Timóteo 1.9-10; Efésios 1.3-6, e a sua aplicação é suficiente para sempre. (5) Ela tanto salva quanto santifica, Tito 2.11-12, de modo que a partir do momento em que Deus começa a aplicá-la, aquele que a recebe jamais fica fora de seu poder que a tudo supera, Romanos 5.20-21. (6) Ela realmente entra em toda área da vida humana, 2 Coríntios 9.8, com exceção do juízo final. Não haverá graça ali, mas só pura justiça condenatória. Precisamos observar, e louvar a graça que é evidente em toda parte em nossas vidas. (7) As vitórias da graça triunfante terão um replay por toda a eternidade à medida que o estilo de vida de cada santo for mostrado a todos os outros para o louvor da gloriosa graça de Deus, Efésios 2.7; 1.3-6. Ninguém pode ser um obreiro aprovado e manejar bem a interpretação da Palavra de Deus sem manejar bem a graça de Deus. 

Vemos Deus revelando a graça no fato de que Ele fez da fé o único meio de agradar a Ele, Hebreus 11.6, mas a fé é sempre uma manifestação da graça operacional, conforme nos diz Romanos 4.16. Onde há a fé genuína, vemos uma evidência da graça, pois só cremos pela graça, Atos 18.27s. As Escrituras declaram que a fé não é uma capacidade natural de alguém, mas em vez disso é obtida de Deus, Efésios 2.8-9, sendo uma das muitas coisas que fazem parte da vida e piedade que Deus deu a Seu povo, 2 Pedro 1.1-4. Em todo lugar em que o novo nascimento e a fé são mencionados juntos, os tempos dos verbos gregos mostram que o novo nascimento, que é obra exclusiva de Deus, vem antes da fé, e é realmente a causa dela, João 1.12-13; 1 Pedro 1.21-23; 1 João 5.1, e outros. E isso é lógico bem como bíblico, pois logicamente a vida vem antes das atividades da vida. Um homem morto, quer morto física ou espiritualmente, só consegue fazer uma coisa, que é se decompor mais.

Pelo fato de que a graça não existe na natureza no homem, mas é um dom divino, Deus deve revelá-la ao homem antes que ele a veja e entenda. Sendo a graça de Deus um favor que não é merecido e é imerecido, é uma verdade que é diametralmente oposta ao orgulho e auto-suficiência inatos do homem, e por esse motivo ele resistirá a essa verdade até que a graça crucifique a carne. As Escrituras muitas vezes mostram que a redenção graciosa de Deus não deixa espaço para glorificar a carne, Romanos 3.27; Efésios 2.9, mas dá toda glória a Deus, Efésios 1.6-7.

Portanto, ninguém pode com justiça interpretar a Palavra de Deus a menos que ele entenda o princípio da graça sobre o qual se baseia toda a bondade de Deus ao homem. Em vez disso, ele enganará aqueles sobre os quais ele tem alguma influência espiritual, e esse é o motivo por que é tão importante entender e interpretar com justiça a graça de Deus.

E isso nos leva ainda a outra revelação que Deus deu, que é a quarta, a revelação da bondade de Deus aos homens. Todas as atitudes de Deus para com o homem — até que o homem as rejeite mediante rebelião — são caracterizadas por bondade. Toda a criação foi estabelecida para manifestar bondade para a humanidade, e só experimentamos coisas ruins porque o homem faz muitas invenções nas obras de Deus. Nada de ruim vem de Deus, exceto aquilo que a pecaminosidade e a rebelião humana compelem Deus a enviar.

A evidência mais inicial da bondade spiritual de Deus para com o homem será totalmente mal compreendida, por causa da cegueira espiritual do homem que o pecado operou nele. “A benignidade de Deus te leva ao arrependimento”. (Romanos 2.4) Mas o homem interpreta mal isso como tentativa de Deus de tirar os prazeres da vida, e torná-lo infeliz. Quando o homem rejeita a bondade de Deus, então a ira de Deus é revelada contra toda impiedade, versículos 4-6, pois é uma cegueira proposital às evidências universais da bondade de Deus, Romanos 1.18-20.

As Escrituras muitas vezes enfatizam a bondade de Deus que nos cerca completamente, Salmo 33.5: “A terra está cheia da bondade do SENHOR”. Salmo 52.1: “A bondade de Deus permanece continuamente”. Nem é toda essa bondade apresentada como algo que é frustrantemente fora de nosso alcance, ou proibida para o nosso gozo, pois Deus “nos dá todas as coisas para delas gozarmos”. (1 Timóteo 6.17) É uma paródia diabólica fazer de Deus um grande estraga-prazeres cósmico que está fazendo tudo em Seu poder para tornar o homem tão infeliz quanto possível. Sim, às vezes pregadores ignorantes mediante sua pregação legalista dão a mesma impressão. Nada poderia ser mais longe da verdade. Não há nada verdadeiramente bom que o mundo goze que Deus não tenha permitido a Seu povo também gozar, contanto que eles o façam dentro dos limites de segurança que Ele colocou ao redor deles. Deus só proíbe aquilo que é espiritualmente mortal, que só um imbecil completo poderia desejar.

Deus revelou Sua bondade para Sua criação de modo que pudéssemos ver o valor que Ele dá ao nosso amor, adoração e louvor. Ai de nós! Somos muitas vezes como animais vorazes que rosnam contra seus donos até mesmo enquanto comem daquilo que os seus donos lhes dão. Ao mesmo tempo em que Deus derrama Sua bondade com tal abundância, muitas pessoas, inclusive santos professos, rosnam contra Ele, e O criticam dizendo que não têm mais e melhores coisas. A ingratidão é uma evidência de depravação, Romanos 1.21-22: “Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos”.

Deus revelou muitas coisas em Sua Palavra, e essas foram reveladas “para que cumpramos todas as palavras desta lei”. (Deuteronômio 29.29) Então a Palavra de Deus é lei, não uma mera opinião ou sugestão, e ninguém pode manejar bem a interpretação das Escrituras se não começar reconhecendo e se submetendo à Palavra de Deus que é tanto completa quanto inerrante.
     
                                        A LEI DA SUBMISSÃO


ESTUDOS EM HERMENÊUTICA BÍBLICA

É um fato verdadeiro que ninguém pode vir a entender genuinamente a Palavra de Deus enquanto ele estiver apegado a uma idéia preconcebida sobre o sentido de determinada passagem. Muitas vezes ele é motivado nisso por interesse próprio. A idéia preconcebida é um bloqueio mental que resiste eficazmente à verdade. Observamos isso numerosas vezes na vida de Cristo, pois muitos dos judeus foram até Ele ao saberem dos grandes milagres que Ele realizava. Contudo, quando Ele não aceitou ser forçado a entrar no molde das idéias preconcebidas que eles tinham dEle quanto ao que o Messias deveria ser, eles foram embora decepcionados e bravos, e foram no final os que gritaram: “Crucifica-O! Crucifica-O!” O orgulho, o preconceito e as idéias preconcebidas podem levar uma pessoa a fazer loucura.

Se o homem é uma criatura caída e depravada, e as Escrituras declaram esse fato com abundância, então não se deve jamais deixar a vontade da carne exaltar-se acima da vontade revelada de Deus. Na medida em que o Espírito de Deus é o Autor das Escrituras, bem como o Interpretador delas, deve-se olhar somente para Ele a fim de se obter a interpretação certa desse Livro. “Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.” (1 Coríntios 2:11)

A fim de alcançar a interpretação certa das Escrituras, o homem deve ser submisso ao Espírito de Deus, pois há outros “espíritos” que certamente o desviarão se não se buscar a liderança do Espírito. Em 1 Coríntios 2:11-12 se mencionam três espíritos distintos que podem influenciar as reações do homem. Há: (1) O espírito humano, (2) O Espírito Santo, e (3) O espírito do inferno, que é Satanás em seu papel como o “deus deste mundo”, 2 Coríntios 2:4. Pelo fato de que ele não é onipresente como o Espírito de Deus, ele tem muitos “espíritos enganadores” — demônios — que o ajudam em seus enganos, 1 Timóteo 4:1, e esses são as causas de todas as doutrinas falsas.

Que essa submissão necessária se ache geralmente nas pessoas verdadeiramente nascidas de Deus, mas só nelas, é indicada na declaração de 1 Coríntios 2:12-14: “Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus. As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais. Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”. A diferença nesses dois tipos diferentes está na submissão do cristão a Deus.

Essa necessidade de submissão foi o que Jesus mencionou quando disse: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo”. (João 7:17) Esse mesmo dever foi apresentado no Antigo Testamento, em Oséias 6:3: “Então conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR”. Nada ajuda mais alguém a vir a interpretar corretamente as Escrituras do que ter uma vontade humilde e submissa para fazer a vontade de Deus, e nada perverte tão rapidamente a verdade como uma má vontade de fazer o que Deus tem revelado como Sua vontade. Essa Lei, pois, é de grande importância, e deve ser secundária só ao fato de que já se fez uma revelação da vontade de Deus. Nenhuma atitude do estudante da Bíblia é tão importante como essa.

“Assim como a Bíblia nos foi dada para propósitos práticos, influenciando caráter, conduta e destino, nosso estudo da Bíblia, para ser proveitoso, deve estar em linha com esses propósitos. O ponto central de toda lição, pois, será sua doutrina nessas questões, e essa doutrina deve ser de tal forma recebida pela fé e assimilada pela obediência a ponto de se tornar um conhecimento por experiência. ‘Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus’. A confirmação contínua e certeza elevada de que estamos interpretando corretamente a Palavra divina pode vir somente aos que podem dizer: ‘Então conheçamos e prossigamos em conhecer o Senhor’, no mesmo modo de experiência que traz suas bênçãos com cada passo a frente. ‘Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito’”. — B. H. Carroll, An Interpretation of the English Bible (Uma Interpretação da Bíblia em Inglês), Vol I, p. 9.

Dá para ver facilmente a verdade de João 7:17 quando consideramos que todo ateu militante estuda as Escrituras, mas nunca chega a conhecer a verdade. O motivo disso é que ele estuda com o objetivo de refutar e derrubar os ensinos da Palavra de Deus, e por esse motivo, ele é incapaz de vir a entender verdadeiramente seu sentido. Sua atitude é errada, pois ele está determinado em sua oposição a Deus, e Deus pois não lhe dará a o discernimento para entender corretamente a verdade espiritual.

“Nessa declaração nosso Senhor declarou um princípio de suprema importância prática. Ele nos informa como certamente se pode alcançar o alvo em conexão com as coisas de Deus. Ele nos diz como se obter discernimento e certeza espiritual. A condição fundamental para se obter conhecimento espiritual é um desejo genuíno de coração de realizar a vontade revelada de Deus em nossas vidas. Sempre que o coração está reto Deus dá a capacidade de compreender Sua verdade”. — A. W. Pink, The Gospel of John (O Evangelho de João), Vol. I, p. 385.

É um engano comum os homens suporem que eles têm a capacidade de entender as coisas espirituais somente pelo mero exercício de suas faculdades mentais naturais. Mas as Escrituras negam isso em muitos lugares, pois as coisas espirituais progridem de acordo de leis espirituais, e só dá para entendê-las quando se reconhece essas leis espirituais e se submete ao Autor Divino das Escrituras. “E, ainda que tinha feitos tantos sinais diante deles, não criam nele; para que se cumprisse a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Por isso não podiam crer, então Isaías disse outra vez: Cegou-lhes os olhos, endureceu-lhes o coração, a fim de que não vejam com os olhos, e compreendam no coração, e se convertam, e eu os cure”. (João 12:37-40) Esse mesmo texto de Isaías 6:9-10 é citado pelo menos em três outros lugares no Novo Testamento no mesmo contexto. “Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos”. (Romanos 11:7) “Mas os seus sentidos foram endurecidos; porque até hoje o mesmo véu está por levantar na lição do velho testamento, o qual foi por Cristo abolido”. (2 Coríntios 3:14)

É mediante somente pelo poder iluminador do Espírito de Deus que alguém pode entender as verdades espirituais da Bíblia. E é frequentemente verdadeiro que aqueles que têm mais aprendizado humano, pelo fato de que confiam nisso em vez de serem conduzidos pelo Espírito, chegam a entender com menos plenitude a verdade do que aquele que tem menos formação educacional, pois este está consciente da necessidade de ser instruída pelo Espírito de Deus. Foi a própria promessa do Senhor que declarou: “Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir”. (João 16:13) Observe que o Espírito guiará em toda a verdade, e portanto quando alguém vier a conhecer a verdade, é mediante a obra do Espírito Santo e não por outro meio. Desses fatos torna-se óbvio que a qualquer momento que alguém rejeita o ensino do Espírito Santo, e confia somente no raciocínio humano para entender a Palavra de Deus, ela imediatamente cai vítima da frustração e confusão. Este não está em submissão ao Autor e Intérprete das Escrituras. Olhando com objetividade o caso não pode ser de outro jeito. Somente onde há uma plena submissão ao ensino e liderança do Autor das Escrituras pode a capacidade de entender profundamente o verdadeiro sentido delas ser recebida.

                                                           
                                 A LEI DO SENTIDO COMUM

                                         ESTUDOS EM HERMENÊUTICA BÍBLICA

                                    Ou,Leis Básicas de Interpretação da Bíblia

O que se quer dizer com essa lei é que onde certa palavra é usada nas Escrituras, deve-se entendê-la em seu sentido mais comumente aceito em todo caso onde é possível. Pensando um pouco perceberá a razão para essa Lei. Se Deus tivesse a intenção de dar uma revelação de Si mesmo à humanidade, é esperado 1que Ele a daria em palavras que o homem pudesse entender facilmente, e não encobrir o sentido em termos misteriosos e desconhecidos. A Palavra de Deus é chamada de “revelação” (grego apokalupse), porque revela Sua vontade e caminho ao homem. Se Sua palavra tivesse o objetivo de esconder Sua vontade e caminho ao homem, teria sido chamada apocriypha — algo escondido — que jamais é o caso. Conforme observamos antes, Deuteronômio 29:29 deixa claro que “As coisas encobertas são para o SENHOR, nosso Deus; porém as reveladas são para nós e para nossos filhos, para sempre, para cumprirmos todas as palavras desta lei”. E o Senhor dá testemunho de Sua determinação de revelar Sua verdade em outros lugares. “Certamente o Senhor DEUS não fará coisa alguma, sem ter revelado o seu segredo aos seus servos, os profetas”. (Amós 3:7) Essas duas passagens assim mostram que o que Deus revela ao homem é bem pertinente a ele, e o que é mantido em segredo dele não tem nenhuma relevância para ele, nem é ele responsável por isso. A obscuridade deliberada é impensável numa revelação.

Mas se essas coisas são assim, então é óbvio que ao dar uma revelação de Sua vontade ao homem, Deus não obscureceria deliberadamente o sentido dela, mas a apresentaria nos termos mais claros necessários para o homem entendê-la. Se fosse de outro jeito, não se poderia fazer com que o homem prestasse contas por conhecê-la, pois até mesmo a lei humana reconhece o princípio, e declara que nenhuma lei obscura tem alguma força obrigatória. Se cremos que a Bíblia é a revelação de Si mesmo e Sua vontade ao homem, então devemos também crer que ela será expressa em termos que o homem possa entender. E certamente indicam isso as centenas de exemplos em que as Escrituras dizem “Então falou Deus todas estas palavras”, ou “veio a palavra do Senhor”, e outras declarações semelhantes que indicam que o que é entregue é compreensível àqueles a quem é falado.

Por esse motivo não temos a liberdade de entender qualquer palavra em qualquer sentido, exceto seu sentido mais natural e comumente aceito, exceto em raras exceções, que consideraremos mais tarde neste estudo. Alguém bem disse: “Se o sentido comum de uma palavra faz sentido, então não busque outro sentido”. A tolice de fazer de outro jeito foi mostrada nos primeiros dias da história cristã, pois até hoje o entendimento de muitas pessoas acerca das Escrituras foi arruinado pelas interpretações loucas que certos antigos comentaristas da Bíblia aplicaram às Escrituras. Orígenes (c. 185-254) de Alexandria, um dos tão chamados “Pais da Igreja”, popularizou a espiritualização até mesmo dos textos mais simples e ensinando que eles sempre tinham algum significado misterioso e oculto que não era óbvio ao crente comum. Seu método de descartar até os ensinos mais claros foi seguido por alguns em todas as gerações. É claro, o ego do pregador se sente bajulado se ele puder afirmar achar nos textos simples o que não é evidente para ninguém mais, e isso explica, em grande parte, a popularidade de tais meios não bíblicos de lidar com a Bíblia. Um desejo orgulhoso de obter glória para si é sempre uma tentação para qualquer um, inclusive pregadores. Tendo dito isso, deve-se reconhecer que há partes das Escrituras que têm sentidos simbólicos ou representativos, pois o próprio Senhor e Seus escritores inspirados às vezes mostram isso. Mas devemos ter o cuidado de não inventar tais interpretações, e principalmente nunca ir atrás de tal modo de interpretação que menospreze o sentido literal do texto.

Mais que freqüentemente, a única razão para não se querer entender uma palavra ou texto em seu sentido mais comumente aceito é que essa palavra ou texto entra em conflito com preconceitos pessoais. Podemos usar como exemplo principal disso a controvérsia que se travou durante os últimos quatro ou cinco séculos por causa das palavras gregas que são traduzidas “batizar” e “batismo”, na maioria das versões do Novo Testamento. Durante os primeiros treze séculos ou mais dessa era ninguém questionava o fato de que essas palavras gregas significavam o ato de imergir ou imersão. Essas palavras sempre tinham a ver com a introdução de alguém ou algo numa solução ou material penetrável. Era uma verdade clara como o sol. Mas começando no século catorze muitas igrejas começaram a se afastar da imersão como o modo correto da ordenança cristã como o pré-requisito de ser membro da igreja. E quando os batistas da época as desafiaram nessa questão, elas tentaram justificar seu afastamento pondo em dúvida os significados comuns das palavras, e essa prática tem continuado até hoje entre os desobedientes.

Contudo, poucos eruditos religiosos de qualquer renome arriscarão sua reputação negando que o sentido básico dessas palavras é de imergir, mergulhar, abluir-se ou submergir. Quando este escritor estava preparando seu livro texto “Estudos Acerca da Verdade da Igreja” alguns anos atrás, ele pesquisou literalmente centenas de testemunhos dos léxicos gregos, acadêmicos gregos, comentaristas bíblicos, professores de seminários, e outros com relação a esse assunto. Ele descobriu que antes dos últimos cem anos aproximadamente, só dois nomes importantes negavam que esse fosse o sentido mais comum de baptizo e baptisma. Um desses foi um conhecido teólogo que por sua própria confissão não era um especialista em línguas. O outro era o renomado Léxico Grego Liddell e Scott. Mas eles receberam tantas críticas de todas as áreas do Cristianismo por darem “aspergir” como um sentido possível, que em sua edição seguinte, eles o removeram completamente e não lhe fizeram nenhuma referência. Os acadêmicos sinceros são compelidos a admitir que a imersão é o sentido principal dessas palavras.

Muitos pregadores modernos, em seu esforço para justificar sua prática não bíblica de aspergir ou derramar e chamar isso de batismo, têm tentado voltar atrás no sentido secundário e metafórico dessas palavras gregas, que podem ser “cobrir completamente”. Mas até mesmo isso não lhes dá nenhum consolo ou ajuda, pois o sentido metafórico ainda se baseia no sentido literal da palavra e não pode ser oposto em sentido a ela. Em nenhum outro caso que conhecemos o sentido comum de uma palavra é mais bem estabelecido, ou a tolice que acompanha o ato de se afastar do sentido comum mais evidente, do que no caso do mandamento do batismo. Assim, isso ilustra a grande importância na interpretação bíblica de perseverar no sentido principal das palavras bíblicas.

Nem é o batismo o único exemplo da violação desse princípio, pois a palavra grega que é traduzida “igreja” (ekklesia) tem da mesma forma sofrido muito abuso, resultando no que é quase mundialmente ensinado com um falso sentido. Essa palavra grega deriva-se de ek, fora de, e kaleo, chamar. Como verbo, significa convocar, e foi comumente usado desse jeito no grego. Como substantivo, refere-se a “uma assembléia convocada”, e jamais é usada no Novo Testamento ou na versão grega do Antigo Testamento, nem nos apócrifos com qualquer outro sentido. A idéia de uma igreja visível e universal nunca foi apresentada até dois ou três séculos depois de Cristo, e quando foi apresentada, veio de homens arrogantes e ambiciosos que desejavam ser senhores soberanos sobre mais do que as assembléias locais. E mais incoerente ainda, a idéia de uma igreja invisível e universal é de época bem recente, sendo inventada nos dias da Reforma. Contudo, um cristão hoje será isolado como um completo herético se ele apenas expressar dúvida acerca da “Igreja” sendo universal. Essa questão é tratada extensivamente no volume um da mencionada obra do autor acima.

Mas dissemos que em raros casos seria justificável afastar-se do sentido principal de uma palavra e aceitar um sentido secundário. Sob quais circunstâncias isso seria assim? Somente se o sentido principal de uma palavra, se aceito, se chocasse violentamente com alguma outra doutrina ou interpretação. Mas isso será um acontecimento bem raro. Muito mais comumente, quando isso parece ser o caso, ver-se-á que é um conflito inventado, feito a fim de justificar o ato de deixar o sentido principal, ou então o conflito evidenciará que uma ou outra das duas interpretações aparentemente em conflito é errônea.

E como dissemos, tal exemplo em que temos justificação para deixar o sentido principal em troca de um sentido secundário será bem raro. No entanto, isso ocorre em raras ocasiões, mas mesmo então, tal troca jamais contradirá o sentido principal, nem lhe será contrário, a menos que a palavra tenha um prefixo ou uma partícula adversativa ligada a ela que a contradiga, que é comumente feito. Mas isso confirma o sentido principal de uma palavra em vez de justificar um afastamento do sentido.

Muitas vezes supõem que a Bíblia foi escrita em tal linguagem técnica que as pessoas comuns não podem entendê-la, e conseqüentemente que os únicos intérpretes confiáveis da verdade bíblica são aqueles com um título de doutor. Na realidade, a verdade é quase o oposto, pois as pessoas comuns, se nasceram de novo e são habitados com o Espírito de Deus, geralmente entenderão as palavras das Escrituras em seu valor mais aparente, e daí não buscarão ir além do sentido comum dos termos. Por outro lado, os que são “doutores da lei” (e não estamos condenando a educação nem os títulos em si) têm a tendência de ficar insatisfeitos com o sentido básico de uma palavra, mas querem se aprofundar mais do que o sentido superficial, e o resultado é que eles se inclinarão a ignorar o sentido comum. A educação formal é boa, e todo cristão deve se esforçar para obter tanto quanto puder. Mas a tragédia é que em muitos círculos religiosos, acham erradamente que a posse de um título ou dois automaticamente signifique que uma pessoa é um homem espiritual, e tal não é o caso. O mundo religioso está cheio de religiosos sem salvação que têm muitos títulos elevados, mas não têm percepção para entender a verdade espiritual. Independente de quantos títulos o homem natural tenha, ele não entenderá a verdade espiritual, 1 Coríntios 2:14.

Às vezes o próprio orgulho influencia o desejo de trazer indiferença ou questionamento do sentido comum de uma palavra nas Escrituras, e isso já levou a alguns dos maiores debates e conflitos sobre palavras. E é interessante que o grego logomacheo de onde extraímos nossa palavra em português “logomaquia” (ser contencioso sobre palavras) se acha no contexto imediato da admoestação de Paulo a Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado”, etc., pois está escrito: “Traze estas coisas à memória, ordenando-lhes diante do Senhor que não tenham contendas de palavras, que para nada aproveitam e são para perversão dos ouvintes.” (2 Timóteo 2:14) Aliás, Paulo várias vezes avisa contra contendas acerca de palavras, 2 Timóteo 2:23; Tito 3:9. E ele declara que essas contendas acerca de palavras brotam do orgulho e ignorância. “Se alguém ensina alguma outra doutrina e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas, contendas de homens corruptos de entendimento e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho. Aparta-te dos tais”. (1 Timóteo 6:3-5)

E não desejamos ser mal-entendidos aqui, como se fossemos contra a formação educacional, ou o estudo das línguas originais ou os sentidos mais profundos das palavras bíblicas, pois essas são todas boas coisas, e devem ser buscadas. Mas deveria ser evidente para todos que as palavras da revelação de Deus devem ser adequadas para os ignorantes, e não os sábios, quando consideramos que “…não são muitos os sábios segundo a carne… que são chamados”. (1 Coríntios 1:26) Pois ao chamar Seu povo do meio dos ignorantes, fracos e ignóbeis, Deus deve necessariamente escolher as palavras da chamada em termos simples e fáceis de entender. Foi por esse motivo que Paulo não deu muita importância para falar línguas estrangeiras entre os coríntios, pois não lhes era proveitoso, a menos que se empregassem palavras fáceis de entender. “Assim também vós, se com a língua não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se diz? porque estareis como que falando ao ar.” (1 Coríntios 14:9)

Ao interpretar as Escrituras, devemos primeiramente reconhecer que elas são uma revelação da Pessoa e vontade de Deus ao homem, e portanto são expressas em terminologia humana comum. Não devemos desnecessariamente complicar sua mensagem aplicando sentidos incomuns a suas palavras. O orgulho do intérprete da Palavra poderá ficar exaltado se parecer que ele tem a capacidade de descobrir muitas verdades misteriosas a partir de uma Escritura aparentemente simples e aberta. Contudo, isso não servirá para a edificação dos ouvintes comuns, o que é o mais importante. Que os frutos amargos do método de Orígenes de espiritualizar até mesmo os textos mais simples das Escrituras nos sejam de aviso contra tais práticas.
   
                                 
                                      
                             A Lei do uso comum

                                          ESTUDOS EM HERMENÊUTICA BÍBLICA

                                      Ou, Leis Básicas de Interpretação da Bíblia

Essa lei está ligada à lei anterior, mas não é a mesma coisa, pois podemos aprender mais acerca do significado de uma palavra observando como é comumente usada. Muitas vezes ao observar todas as vezes em que determinada palavra aparece no Novo Testamento, vemos com que ela lida negativamente ou positivamente e a plenitude de seu sentido. Para citar uma ilustração: a palavra grega kosmos tem o sentido básico de ordem, arranjo, ornamento, adorno. É traduzida “mundo”, em todas as 188 vezes em que aparece, exceto em 1 Pedro 3:3, onde é traduzida literalmente “enfeite”. Muitas pessoas erroneamente presumem que essa palavra sempre e sem exceção se refere a toda a humanidade, mas tal não é o caso, pois um exame cuidadoso de todas as vezes em que ela aparece mostra que tem pelo menos treze aplicações diferentes. Portanto, ninguém pode com justiça interpretar qualquer texto usando kosmos se não levar isso em consideração e cuidadosamente estudar o contexto para apurar ao que é biblicamente aplicado. Deve-se temer que a negligência de fazer isso vem promovendo muita falsa doutrina.

Ou para citar outro exemplo: Embora não tão comum hoje como eram há duas gerações, muitos pregadores tinham o costume de entrar em debates acerca de assuntos religiosos. A justificativa para esses debates era que raciocinava-se que embora nenhum dos dois debatedores pudesse ser influenciado ou mudado de sua posição, porém os que escutavam e observavam os debates poderiam aprender doutrina, e alguns, talvez, até mesmo se converter através disso. Isso soa lógico e bom.

Mas quando consideramos todas as vezes em que aparece a palavra grega traduzida “debate” (eris), vemos que jamais é usada num bom sentido. De modo oposto, Paulo a denomina obra da carne, que é condenada. “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias [grego eris = debate]”, etc. (Gálatas 5:19-20). E em Romanos 1:29 Paulo descreve os homens a quem Deus entregou a uma mente pervertida, para fazer aquelas coisas que não são convenientes, tais como estar “cheios de toda iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda (eris), engano, malignidade;” etc. De novo, ele pergunta em 1 Coríntios 3:3: “Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas [eris = debate] e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?”

Certamente não podemos visualizar como sendo boa qualquer coisa que ande em tal má companhia, como acontece com essa palavra, e achamos impossível ver qualquer coisa boa vindo daquilo que a Palavra de Deus declara que é uma marca de carnalidade. Isso só mostra como uma idéia errônea pode ocorrer quando o uso comum de uma palavra do Novo Testamento não é considerada e todos os seus usos comparados. Assim, muitas vezes nos esquecemos do aviso de 2 Coríntios 10:5, “Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo;”.

Isso nos leva a considerar outra prática errada que é muito comum entre o povo do Senhor, e essa prática é fazer com que o bom senso comum seja o juiz e júri quanto ao que é certo numa interpretação ou prática. Já que “comum” significa aquilo que todos têm em comum, e as Escrituras muitas vezes nos avisam que a maioria da humanidade não é salva, nem espiritual, nem consciente da verdade, podemos ver o perigo de seguir o “bom senso comum” em assuntos espirituais. Se substituirmos o “bom senso comum” pelo “sentido e uso comum” de uma palavra no Novo Testamento, só poderemos esperar terminar em confusão. Na melhor das hipóteses, o “bom senso comum” é apenas raciocínio humano, no qual jamais se pode depender quando o bom senso se afasta do veredicto autorizado da Palavra. Paulo foi inspirado a mandar o povo do Senhor sujeitar todas as imaginações do homem à mente de Cristo, que é só conhecida através da Palavra de Deus, 2 Coríntios 10:4-5.

Pelo fato de que a mente humana foi afetada pela queda do homem no pecado no Jardim do Éden, não se pode jamais confiar totalmente na mente até que a carne seja redimida na volta do Senhor. Até então, mesmo os cristãos precisarão constantemente ser renovados na mente, Romanos 12:2; Efésios 4:23, e eles jamais podem confiar em sua própria capacidade de raciocinar para interpretar a Palavra. Precisamos permitir que as leis já consideradas nesta série tenham impacto pleno sobre o sentido e uso comum de uma palavra, ou então o erro certamente ocorrerá.

Nós nos aventuramos a dar outro exemplo da tolice de se afastar do uso comum de uma palavra — neste exemplo, o uso universal de uma palavra — e de substituir o raciocínio humano no seu lugar. Em Mateus 13:33 Jesus disse: “Outra parábola lhes disse: O Reino dos céus é semelhante ao fermento, que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado”. Soltando as amarras do ancoradouro do uso comum, e dando liberdade para a imaginação, os homens têm concluído que aqui fermento era um tipo do Evangelho, que, assim pensava-se, ao ser introduzido no mundo, logo se expandiria no mundo inteiro, e faria com que todas as pessoas se tornassem cristãs. Essa interpretação foi dada como um meio de justificar uma falsa doutrina — o erro do pós-milenialismo, que só se pode aceitar mediante uma interpretação incorreta dos ensinos simples da Palavra de Deus. Chegou-se a essa conclusão sobre o sentido do fermento aqui apesar do fato de que o fermento (grego zume) jamais é usado num bom sentido, mas sempre num sentido maligno nas Escrituras. O uso comum dessa palavra é totalmente contra a interpretação de que o fermento aqui é um tipo do Evangelho, mas alguns homens que, em outros aspectos são bons e firmes, têm sido desencaminhados porque ignoraram essa Lei do Uso Comum. “Fermento” aparece quinze vezes no Novo Testamento, mais um número ainda maior de vezes no Antigo Testamento, e com a exceção da vez em que aparece em Mateus 13:33 e na passagem paralela de Lucas 13:21, é sempre como algo que se deve evitar, e os crentes recebem ordens de removê-lo. E esses dois textos não são exceções ao uso comum, pois ensinam a mesma verdade, exceto que aqui “fermento” é usado como uma representação ou metáfora. Referência a Mateus 16:12 revela com que intenção se tipifica o fermento na parábola de Jesus. “Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus”.

A intenção da parábola de Jesus era mostrar, não os efeitos extensivos do Evangelho no mundo inteiro, mas em vez disso os efeitos extensivos e corruptores da doutrina falsa. Nas Escrituras, muitas vezes a mulher é usada para tipificar um sistema moral ou religioso, bom ou mau. Veja o aspecto mau descrito em Apocalipse 17:1. Nessa parábola a mulher representa um falso sistema religioso que introduz falsa doutrina no mundo religioso com o resultado de que o reino terreno do céu é pervertido. É exatamente isso o que aconteceu, começando no segundo e terceiro séculos, e o resultado foram todas as falsas igrejas do catolicismo e protestantismo. Todas as parábolas em Mateus 13 que antecedem à parábola do versículo 33 haviam predito somente um sucesso limitado na semeadura da semente porque o diabo mandaria obreiros maus para introduzir ervas daninhas (religiosos não salvos) no meio da boa semente, e essas seriam misturadas no reino do céu para seu grande prejuízo. Ter agora uma parábola que mostre expansão e sucesso quase universal do Evangelho seria uma contradição gritante do tema inteiro dessa série de parábolas, as quais estão todas inter-relacionadas, e harmoniosas em seus ensinos. Mas interpretação contra as representações, parece, não tem nada de errado para alguns intérpretes se a representação confirmar seu falso sistema de doutrina que não se poderia confirmar de outro modo. Mas tal é contrário a toda interpretação correta da Bíblia.

“O princípio da fermentação que lhe é inerente o torna o símbolo de corrupção, pois a fermentação é o resultado da maldição divina sobre o universo material por causa do pecado. Sempre na Bíblia, o fermento fala do mal em algum forma… Em Mateus 16:12, o fermento fala da doutrina diabólica em sua forma triplicada de farisaísmo (externalismo na religião), saduceísmo (ceticismo acerca do sobrenatural e das Escrituras) e herodianismo (mundanismo)”. — Kenneth S. Wuest, Word Studies In The Greek New Testament (Estudos da Palavra no Novo Testamento Grego), Vol. I, p. 162.

Essa necessidade de considerar o uso paralelo de uma palavra ao interpretar as Escrituras é mostrada em 1 Coríntios 2.12-13: “Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus. As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais”. Aqui observamos várias coisas pertinentes sobre a interpretação das Escrituras. (1) É somente mediante o Espírito Santo que podemos entender as coisas de Deus. (2) Ele foi dado “para que pudéssemos conhecer” etc., o que dá prova de que é a vontade de Deus que Seu povo tenha consciência da verdade que está guardada nas Santas Escrituras. (3) Não se aprende essas coisas através das palavras da sabedoria humana, mas somente através das palavras da sabedoria divina. É por esse motivo que precisamos guardar as palavras que a sabedoria humana deu em vez de substituir os termos e sinônimos humanos onde for possível. (4) Finalmente, esse entendimento das coisas de Deus ocorre somente “comparando as coisas espirituais com as espirituais”. É isso que queremos enfatizar — a comparação de todos os usos de determinada palavra ou doutrina nas Escrituras é o modo divinamente ordenado de interpretar a Palavra. Uma das formas mais comuns de apresentação da Bíblia é o paralelismo — a colocação de duas declarações em paralelo uma com a outra a fim de compará-las, ou contrastá-las, assim definindo-as com mais clareza por cada parte explicando a outra.

             
                    

                                  A LEI DA LINGUAGEM



      ESTUDOS EM HERMENÊUTICA BÍBLICA

      Ou, Leis Básicas de Interpretação da Bíblia



Essa lei bem que poderia ter o título de “A Lei da Estrutura Gramatical”, pois ela tem relação com as formas e estruturas das palavras e seu arranjo normal em frases e orações. Portanto, com essa lei nossa intenção é considerar a importância que diferentes tempos, modo verbal, número, voz, etc., têm na interpretação apropriada das Escrituras, e principalmente nas línguas da Inspiração. É um fato que muitas vezes uma interpretação errônea é produzida quando, por simples negligência, não se considera o modo exato em que uma declaração é apresentada na Palavra de Deus. A Palavra de Deus é totalmente inspirada, e portanto podemos esperar que toda partícula dela tenha uma significação digna de nossa maior atenção. Nada disso poderia ser desse jeito se, como afirmam alguns liberais, só os pensamentos fossem inspirados, com a construção exata das palavras deixadas à escolha do escritor individual. As Escrituras ensinam em 1 Pedro 1:10-12 que os escritores inspirados às vezes não entendiam o que profetizavam, mas tinham de estudar diligentemente seus próprios escritos para apurar o que estavam profetizando. Nosso Senhor negou a opinião dos liberais acerca da doutrina da inspiração quando Ele disse: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar”. (Mateus 24:35) E ainda mais pertinente é Sua declaração em Mateus 5:18: “Até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido”.

Nessa última passagem, a palavra “jota” se refere à letra hebraica Yod, a menor desse alfabeto, enquanto “til” se refere ao chifrinho ou anexo que diferenciava algumas letras hebraicas de outras, nenhum dos quais saiu de existência. Imagine! Não só as palavras, mas até mesmo as menores letras, bem como as partes menores das letras que compunham as palavras, não sairiam de existência, mas permaneceriam até que tudo se cumprisse. Isso mal parece a opinião dos liberais acerca da inspiração, e estudos adicionais confirmarão isso.

É bem importante na consideração de qualquer passagem determinada das Escrituras dar atenção adequada aos tempos verbais usados, pois essa é a categoria gramatical que determina o tempo da ação ou o estado de existência de um sujeito. Citamos, mediante ilustração, uma passagem em que alguns cometeram esse erro, e conseqüentemente apareceram com um erro bem sério com relação às oportunidades de salvação após a morte. As Escrituras declaram que “porque por isto foi pregado o Evangelho também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, mas vivessem segundo Deus em espírito;”. (1 Pedro 4:6) A partir desse texto alguns têm formulado uma doutrina de uma segunda chance para os homens serem salvos após a morte. Eles baseiam essa idéia na idéia errônea de que o Evangelho foi pregado àqueles que estão mortos, dando-lhes uma segunda chance de ser salvos. Mas uma cuidadosa atenção aos tempos verbais mostra o erro dessa interpretação. O Evangelho foi pregado (tempo passado) àqueles que estão (agora) mortos (tempo presente), que faz uma diferença muito grande de entendimento no que alguns propõem.

É ainda muito melhor se podemos estudar as Escrituras em suas línguas originais, pois as línguas que a Inspiração escolheu nas quais registrar a Palavra de Deus — o hebraico do Antigo Testamento e o grego do Novo Testamento — são ambas mais precisas do que nossa língua portuguesa. Dá para ver isso pegando uma concordância em português e procurando quase todas as palavras comuns. Pois veremos que muitas vezes uma palavra em português será usada para traduzir até uma dezena de palavras gregas e hebraicas totalmente diferentes, das quais todas têm variadas nuanças de sentido, a maioria das quais o português não revela. É claro que muitas vezes isso não é possível para os leigos, e assim Deus chama os pastores, que comumente são versados nas línguas da Inspiração, para lhes expor a Palavra. Mas às vezes até mesmo os pastores podem não ter conhecimento do hebraico e grego, porém Deus dotou muitos homens piedosos do passado com conhecimento dessas línguas, e os levou a escrever comentários em que se explicam as línguas originais. Lamentavelmente, temos conhecido alguns pregadores que se recusaram a usar quaisquer tais auxílios sob a alegação de que o Espírito Santo lhes ensinaria o que eles precisavam saber. A atitude deles, se podemos julgar pela prática deles, é a atitude orgulhosa e arrogante que “de todos os homens só eu sou conduzido pelo Espírito de Deus. Esses outros homens que escreveram todos esses comentários não eram conduzidos pelo Espírito de Deus ao fazerem isso, mas só inventaram essas coisas. Não preciso delas, pois sou mais espiritual do que esses homens”.

Se essa não é a atitude deles não sabemos qual a desculpa que eles têm para não usar os bons estudos e dissertações que Deus deu a homens bons e piedosos das gerações passadas. E deve-se logo admitir que nenhum comentarista escreveu por inspiração. Por isso, às vezes eles estavam errados em algumas dissertações, mas talvez não mais errados do que nós todos estaremos quando estivermos diante do tribunal de Cristo.

No Novo Testamento grego os tempos presente e futuro geralmente correspondem aos tempos do mesmo nome em português. Mas a língua grega tem vários tempos que têm a ver com ações passadas, mas com diferentes nuanças de sentido do nosso tempo passado em português. Muitas vezes, esses tempos não são traduzidos, de modo que a nuança de sentido que a Inspiração deu a determinado verbo não é revelada. O tempo imperfeito grego expressa uma ação prolongada ou recorrente no tempo passado. O tempo aorista grego é estritamente a expressão de uma única ação momentânea ou transitória, sendo assim distinta do imperfeito. E no modo indicativo comumente significa o tempo passado. O tempo perfeito é muitas vezes traduzido como um simples tempo presente, mas tem a noção dupla de uma ação terminada no tempo passado, e de seu efeito existindo até o presente. Esse é um tempo de modo especial abençoado, já que muitas vezes expressa a posição do cristão em Cristo, mas que geralmente não aparece em nossa tradução em português. O tempo mais que perfeito expressa o efeito como passado bem como a ação. (Sobre essas questões, veja Harper Brothers’ Analytical Greek Lexicon [Léxico Grego Analítico dos Irmãos Harper], p. xlii.)

O efeito prejudicial de não conhecer todos os verbos gregos se vê na doutrina que se cria a partir de Mateus 16:19, que é quase o oposto do que é apresentado pelos verbos da Inspiração. Muitas pessoas e até denominações inteiras usam isso como justificativa para uma igreja decretar qualquer coisa que lhe agrade, como se o Senhor a fosse sancionar. Tomamos a liberdade aqui de registrar nossas observações neste texto:

“A maioria das traduções, inclusive João Ferreira de Almeida, têm ignorado completamente os tempos, principalmente o uso de ‘ligar’ [amarrar] e ‘desligar’ [desamarrar] de cada seção do versículo. Pois esses outros usos das palavras não são de forma alguma os tempos futuros, como indica a versão em português, mas são os tempos perfeitos, que representam uma ação que foi completada, porém com resultados que se estendem ao presente. Uma tradução literal, assumindo conhecimento de todo verbo em seu devido tempo teria a leitura: ‘E aquilo que tu amarrares (subjuntivo futuro ativo, indicando possível ação no futuro) na terra será (indicativo futuro, indicando simples ação futura) o que já foi amarrado, resultando numa amarração permanentemente estabelecida (particípio passivo perfeito, indicando uma ação passada terminada com resultados progressivos) no céu. E aquilo que tiveres desamarrado (subjuntivo aorista, uma possibilidade passada simples) na terra, será (futuro, indicando simples ação futura) o que foi desamarrado, resultando numa desamarração permanentemente estabelecida (particípio passivo perfeito, de novo indicando uma ação passada terminada com resultados progressivos) no céu’. Assim, em vez de a Cabeça da igreja dar permissão às igrejas para fazerem quaisquer regras que quiserem para regular sua adoração, Ele as confinou a sempre ‘amarrar’ e ‘desamarrar’ somente em conformidade com os princípios que já foram estabelecidos no céu. Em outras palavras, tudo deve ser regulado pelos princípios revelados nas Escrituras Inspiradas”. — Studies On A Harmony Of The Four Gospels (Estudos acerca de uma Harmonia dos Quatro Evangelhos), p. 481.  (Manuscrito não publicado.)



Nós nos aventuramos a dar ainda outra ilustração que, embora sem relação com um grande erro doutrinário, é apesar de tudo um erro. Alguns homens, a fim de se apegarem à teoria de que a ordenação ao ministério do Evangelho é absolutamente necessária para a administração do batismo, declaram que o diácono Filipe se tornou um pregador ordenado antes que ele batizasse os samaritanos e o etíope, Atos 8. Contudo, lemos acerca dele alguns vinte anos mais tarde que ele ainda era considerado um dos sete diáconos originais, muito embora ele fosse agora conhecido como “Filipe, o evangelista”, Atos 21:8. A declaração “que era um dos sete” soa em português como se se referisse ao que ele era uma vez. Mas na verdade, o verbo grego é um particípio presente — “sendo um dos sete”, de modo que, longe de ser um pregador ordenado pelo modo costumeiro, ele ainda era reconhecido como um dos sete diáconos originais. O erro de pensar que Filipe havia se tornado um pregador ordenado surgiu em parte pelo fato de se atribuir à palavra evangelista um sentido moderno. Em nossa época, essa palavra veio a significar um pregador que é só um reavivalista, mas nas três vezes em que aparece no Novo Testamento, a palavra sempre é usada em contraste ao ministério pastoral ordenado da Palavra, e em vez disso tem o sentido de “evangelizar”. 



Há também a necessidade de considerarmos cuidadosamente os substantivos e seus pronomes a fim de chegarmos a entender de modo adequado as Escrituras, pois acontece às vezes que a interpretação certa dependerá deles. Por exemplo, o catolicismo romano coloca muita ênfase em que suas mulheres tenham todos os filhos que puderem, e lhes promete, aliás, vida eterna por fazerem isso. Eles baseiam isso numa interpretação incorreta de 2 Timóteo 2:15: “Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia na fé, no amor e na santificação”. Mas essa interpretação incorreta não sobreviverá se tão somente considerarmos cuidadosamente os dois pronomes desse versículo. “Ela” se refere à mulher, mas o pronome “eles” sendo diferente em número, não pode se referir à mesma pessoa, mas se refere a seus filhos. Isso não tem nada a ver com a salvação da alma, mas em vez disso está relacionado à vida da mãe. Uma mãe vive indiretamente de seus filhos, de modo que se eles forem filhos cristãos fiéis — quer dizer, “se permanecer com modéstia na fé, no amor e na santificação”, — então qualquer que seja o sofrimento que ela possa ter suportado dando à luz a eles não terá sido em vão. Caso contrário, a vida dela terá sido em vão, e o propósito inteiro de sua vida terá se perdido. Os homens levantam para si monumentos no governo, nos negócios, nas artes e outras áreas, pois a esfera de trabalho do homem tem historicamente sido pública. Mas a esfera da mulher, tendo sido historicamente no lar, seus filhos são os monumentos dela, e ela é salva neles — quer dizer, ela vive deles, mas eles resplandecerão bem sobre ela somente se eles forem cristãos bons e fiéis.

Há muitos outros exemplos onde é necessário considerar cuidadosamente o substantivo e seu pronome a fim de se entender e interpretar corretamente as Escrituras. Pois se um pronome é interpretado para se referir ao antecedente errado, então na melhor das hipóteses o resultado será uma interpretação errada e, dependendo do assunto sob consideração, poderá se produzir uma grande heresia.

Um dos piores exemplos da interpretação errada de pronomes se encontra na interpretação comum de 2 Pedro 3:9. “O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para connosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se”. A interpretação comum desse texto aplica-o a todas as pessoas perdidas, mas em nenhuma parte toda a humanidade está em vista no contexto, nem os pecadores em geral. “Alguns” e “todos” são ambos pronomes, e nenhum pronome pode permanecer sozinho, mas deve se referir a um substantivo ou pronome antecedente. O “todos” que Deus deseja que venham ao arrependimento se refere ao “alguns” que Deus não quer que pereçam. Mas nenhuma dessas duas palavras identifica de quem são, de modo que devemos voltar um passo atrás, e achamos ainda outro pronome — “convosco”. Entretanto, esse é ainda outro pronome, de modo que ainda não identificamos quem são aqueles que Deus não quer que pereçam, mas venham ao arrependimento. O próximo substantivo é “Amados” no versículo 8, mas embora essa palavra seja uma terminologia comum para o povo do Senhor, não é ainda tão específico quando necessário para identificá-los no versículo 9. No entanto, o substantivo aparece antes disso nos versículos 1 e 2, onde vemos que ele se refere às mesmas pessoas a quem foram dirigidas na primeira epístola que Pedro escreveu, e que define quem são eles. “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros... eleitos…” (“aos estrangeiros eleitos espalhados” é assim que se lê o texto inspirado). Claramente então o “alguns” que Deus não quer que pereçam, mas o “todos” dos quais Ele quer que venham ao arrependimento, são os eleitos. Isso está em harmonia com o propósito declarado do próprio Salvador, que disse: “Todo o que o Pai me dá virá a mim (os eleitos, como essa frase sempre quer dizer) vem a mim”. (João 6:37) E também: “Dos que me deste nenhum deles perdi”. (João 18:9)

A outra interpretação mais comum, embora seja dada com um desejo sincero de fazer com que os pecadores percebam a disposição de Deus de salvar aqueles que se arrependem, é uma interpretação muito incorreta. E pior ainda, sugere a noção, que desonra a Deus, de que Deus é impotente para salvar todos os que Ele escolheu, e está constantemente frustrado em Seu propósito de graça. Muitas vezes as Escrituras declaram que Deus realiza tudo o que Ele determina, Salmos 103:19; 115:3; Isaías 46:9-10; Romanos 8:28-30; Efésios 1:11, e outros.

Nesse ponto precisa-se dizer algo mais sobre a palavra “todos”. Uma breve canção comum, mas totalmente sem sentido e enganosa, é muitas vezes imitada como se fosse a palavra do próprio Senhor. Muitas vezes se diz que “Tudo significa tudo, e isso é tudo o que tudo significa”. Errado! Deve-se enfatizar que a palavra “todos” não só não abrange tudo, como pensam alguns, mas também é sempre limitada em todo uso. “Todos” jamais pode permanecer só, pois é sempre usada como pronome, adjetivo ou advérbio. Mas não importa qual seja seu uso, é limitada por substantivo, pronome, verbo, adjetivo ou advérbio que a modifique. E o fato de que nem sempre se declare (mas só se insinue) a palavra que ela modifica não altera esse fato.

Não se pode minimizar a importância das preposições em nosso estudo das Escrituras, pois muitas vezes elas são os pontos decisivos para algumas interpretações. De novo citamos um exemplo. Os defensores do batismo por aspersão e efusão há muito desafiam o sentido da palavra grega baptizo, como aliás eles são obrigados a fazer a fim de sustentar que o rito seja realizado em qualquer outro modo que não seja por imersão. Mas as preposições que são usadas em conexão com baptizo são tais que elas nunca entram em choque com imersão, e muitas vezes baptizo as requer. Por outro lado, não se pode de modo algum usar a maioria dessas mesmas preposições com a prática de aspergir ou efundir-se. Assim, a preposição grega en, que corresponde à nossa palavra em português “em”, é usada em muitos lugares nas Escrituras com essa ordenança. Na versão do Rei Tiago em inglês, os tradutores protestantes fizeram seu próprio limite no argumento traduzindo a palavra “com” onde é usada em conjunto do batismo. Em literalmente centenas, se não milhares de outros usos, é muitíssimo comum traduzida como “em”. Tente traduzir literalmente essa palavra e colocá-la na companhia de “aspergir” ou “efundir-se”, e veremos imediatamente a incoerência de tentar fazer com que o batismo seja num desses dois modos. Essa preposição é usada com batismo em Mateus 3:6, 11; Marcos 1:4, 5; Lucas 3:16; João 1:26, e outros. Mas preste atenção e veja como essa preposição soaria se fosse usada com “aspergir” ou “efundir-se”. “E foram aspergidos por ele no Jordão!” “E foram efundidos por ele no Jordão”. Lembre-se! A expressão é tal que não foi o Jordão que foi aspergido ou efundido, mas foram as pessoas. Não se pode aspergir ou efundir-se pessoas. Mas usada em conjunto de imersão — “foram imergidos no Jordão” — faz sentido perfeito e fica em harmonia com o sentido da palavra grega baptizo.

A preposição eis (em) é também usada em conjunto do batismo em vários lugares, que é também incoerente e irracional se usada com qualquer palavra, exceto imergir ou seu equivalente. O mesmo se aplica ao uso de “descerem ambos à”, e “saíram da água” em Atos 8:38-39. O uso dessas preposições só faz sentido se a prática dessa ordenança era a imersão.

É ainda desse jeito que o número de uma palavra pode ser um ponto importante para o qual a interpretação apropriada se dirige, pois assim argumenta Paulo em Gálatas 3:16. “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências [plural], como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência[singular], que é Cristo”. Sem dúvida, essa maneira de argumentar se aplica a 2 Samuel 22:51 e o Salmo 18:50, onde se faz referência a Davi, “com a sua semente [descendência] para sempre”, pois é claro que o que se quer dizer é um descendente específico de Davi. Alguns comentaristas têm achado que esse singular considerava toda a semente plural como algum tipo e unidade, mas Gálatas 3:16 é tão claro que ninguém pode negar que a referência é a Jesus Cristo, de modo que parece mais seguro vê-Lo sempre que o singular estiver em tais referências.

Há outros lugares em que um único substantivo é usado, mas que os tradutores por engano traduziram como plural, ou vice versa. Assim, nesse extraordinário Salmo messiânico, Salmo 110:6, lemos: “Julgará entre os gentios; tudo encherá de corpos mortos; ferirá os cabeças [literalmente, cabeça — singular] de muitos países”. Isso inquestionavelmente se refere à queda final do príncipe deste mundo conforme foi profetizado há muito tempo. “E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. (Gênesis 3:15)

Poderia-se dizer muito mais acerca da observação cuidadosa da estrutura gramatical na interpretação das Escrituras, mas confiamos em que isso será suficiente para mostrar a importância da construção gramatical, e assim passamos a considerar ainda outra Lei.



Autorizado pelo autor

Autor: Pr Davis W Huckabee
Fonte: www.obreiroaprovado.com

Adaptado: Pr. Adélio Ferreira